
Meu maior consolo nesse momento de total desequilíbrio dessa colméia humana é saber que estou apenas desacreditado. Desacreditado? Isso ao menos me diz que eu um dia acreditei e por força dessa contra gravidade tornei-me “dês”.
Os anos foram responsáveis, hoje trinta, não sei quando essa conta acaba, mas sei que nunca diminui.
Um dia foi inocente, mas desde a invenção do fogo há milhões de anos o homem perdeu sua inocência e deu vida a conquista, ao poder e ao que a falta de poder faz. Desde o fogo nos vêem desacreditando, desmanchando, desumano, sinto, mas, nunca voltaremos a ser desnudos. Tempo demais, fogo demais.
O que me entristece é essa fagulha de desconfiança em quase certeza acreditar, e meus filhos? Como será? Em que eles vão poder acreditar? Não sei se terão a graça de ao menos se tornarem “dês”, não sei se eles vão nascer e ter em quem ou em que acreditar. Inacreditavelmente não sei se eles vão saber conjugar, um verbo que está em permanente mutação a caminho do abismo da extinção.
O humanismo acinzentou, não acredito mais no homem, não me parece mais humano, me parece mais como o bicho da maçã, que corre pelo cume da fruta tentando achar uma fraqueza pra que possa entrar. Me parece a larva procurando se entranhar na procura nômade por alimento que só ira tornar sua vida uma morte menos breve. Parece-me aquele missionário esperando o índio virgem retornar da mata para ele catequizar. Parece-me o sol do sertão árido, esperando cair o choro da criança pra também poder secar.
Seremos nós os vermes, seremos nós a doença a transformar essa terra em um só câncer? Imagino-me olhando de cima de um microscópio e vejo os caminho que cavamos, e as covas que plantamos. Sempre mais fundas sempre mais fria.
Onde está Deus nisso tudo, olhando sua mesa vazia e tentando de todas as maneiras exterminar a praga que assola sua plantação? Jogando sobre nós doenças, terremotos, enchentes, enxertando inteligência em nossas mentes para acharmos uma rápida maneira de nos implodir? Não, acho que não, nós já temos essa competência, adquirida no comercio inescrupuloso, no jogo atrás do jogo, na política atrás das mortes, na caneta atrás da má intenção, no antes verde e agora concreto esguio, na mentira antes da verdade. Até meu futebol de domingo foi contaminado! Onde estão os Deuses? Onde estarão os astronautas e suas promessas de cura?
Realmente não sei se teremos gerações em que acreditar, porque não sei se elas acreditarão, ou se já nascerão fadadas a somente decorar seu habitat natural sem nenhuma resignação.
Inconformadamente, não sei, estamos vivendo a reta, sem saber o que faremos quando a iminente curva chegar.
Não tenho Deus a quem pedir, mas se tenho quem me ouvir, eu peço um único e último desejo, antes do fim me deixe beijar meus amigos, me deixe ficar com minha família, me deixe dormir nos braços da minha mulher. Permita-me recobrar a fé.
Foto por Bruno Miranda