terça-feira, junho 26, 2007

O padeiro, o homem e a ex-mulher


O Padeiro:
De tão comum é apenas mais um
A mesma história se repetiu
Com aquele que outro dia riu
E agora chega sem graça
Pelo outro lado da praça

Como eu te avisei sobre ela
Agora não adianta lamentar
Ela só quer mesmo se deitar
E se negar aos olhos tortos
De quem se preza julgar

O Homem:
Deixa eu te contar
Assim ela se foi de mim
Às escuras pelas ruas
De enganos com fulanos
Com tantos nomes e telefones
Que em listas não se cabe
E jamais vão se acabar

Me deixa terminar
Assim me fiz sozinho
Caindo por descaminhos
De um desejo mesquinho
Até trocar um lar
Por alguém
Que nunca foi
E nem será
De ninguém

A Ex-mulher:
Me deixa ir embora
Enganada assim eu vou agora
Vendo no canto o anel partido
No peito um coração escondido
Nos pés a chegada do abismo

Mas hei de me levantar
Enxugar do rosto
O que não deveria sangrar
E levar meu corpo
A quem sabe o que é... amar.

Foto por Zé Pedro

terça-feira, junho 19, 2007

Sort


Sinto uma tristeza
Uma tristeza profunda
Que me queda os olhos
Assim como sono.

Sinto uma saudade
Uma saudade imensa
Que me rouba o ar
Assim como susto.

Sinto, sinto muito,
A arte de saber perder
De sentir dor sem sofrer
Sinto esse dom não ter.

Sinto o que sinto
Não minto
Sou como vou
Sou meu senhor.

E amém.

Foto por Sérgio P.

terça-feira, junho 12, 2007

Encontro




Será destino, será desvio,
Será sempre ou somente
Será você ou serei eu.

Pouco a pouco
Lado a lado
Um dois e par
Sem perceber
Viramos querer.

Seu olhar no meu
Meu olhar no seu
E agora já não tem hora
De dizer adeus

Te amo no silêncio
Das palavras não ditas
Te amo no momento
Dessa simples escrita.

Foto por Manu Coloma

domingo, maio 20, 2007

Novo testamento


E que presságios houve
De um amor em hora errada
Sinais na mais fina areia branca
Onde os pés um dia pisaram
A morte é o mar sem amor
Que furta de nós e oferta a outros.

A curva caprichosa do tempo e destino
Desata o instante mais longe entre soluço e choro
Lembra-me tua carne um arrepio
Dois a sós e desarmados
Por um amor em morte sem testemunha.

Veio sob nós o anúncio
De um amor que fizera
Um novo testamento.

Mas lá no fundo vejo novos namorados
Lado a lado, mão a mão, boca a boca,
Recebendo a sorte de quem um dia amou.

Mesmo triste, sorri.

Foto por Paulo Panicheiro

sexta-feira, maio 11, 2007

Ensaio I


...
Saber que um dia nada serei é saber que nada sou diante das coisas. A vida é maior que nós, o tempo é maior que a vida. A matéria não é nada mais que poeira formada por nossa imaginação particular vivendo em um determinado tempo e espaço. O que cada um vê é diferente em cada um dos olhos. O pensar é colocar para dentro coisas que são de fora. Pensar sobre a vida quando o importante é senti-la, pensar sobre “o que será” quando o que importa “é o que sou”, e qualquer dia chega nesse dia findo o fim de todos os dias. Sendo, não importará mais a vaidade ou a avareza, o esquecer é obra do tempo que o tempo não esquece. O que eu sou importa a mim enquanto durmo o que você é não importará nunca a mim, o guardador do nosso sono é único dentro de nós, e única é a forma como habitamos a extensão do nosso corpo, andar em acordo com o mundo é estar em desacordo com nós mesmos...

Foto por João Santiago

terça-feira, maio 08, 2007

De tudo um pouco


De tudo fica, fica um pouco,
Um pouco de luz no teu rosto
E de amargo no fim do gosto.

Um pouco de adeus nas mãos
E alguns gestos em vão
Ficaram poucas, poucas roupas,
E muito, muito a dizer ainda.

Mas de tudo fica um pouco
Um pouco de cigarro
No maço amassado
Um pouco de álcool
No copo quebrado
Um pouco de descaso
Pelo que traz o acaso
E de tudo fica um pouco
Um pouco de teus olhos
Nos olhos de tua filha.

Um pouco de nosso pó
Um pouco de nosso gozo
Nas camas dormidas
Pelas noites traídas.

Fica um pouco de tudo
No presente, no passado,
No futuro, dentro do corpo,
E em nossos retratos.

De tudo fica, fica um pouco,
Um pouco de vazio
Na lembrança sempre viva.

Foto por Bruno Espadana

sexta-feira, abril 27, 2007

A máquina e o homem


Pensei em acordar e viajar
Passar por esse tempo mesquinho
De homens e máquinas a produzir
Cascas humanas enferrujadas e amargas.

Se me lembro do meu tempo infante
Lembro de tudo mais leve, mesmo
Naqueles que barba e bigode escondia
Existia gesto e olhar assim, feito poesia.

E agora que brinquedo inventar
Para elevar ao sonho tantos inumanos?
Produzirá a tecnologia de hoje
Invento que possa o humor modificar?

Sinto, cada qual terá que o seu criar,
Não há fábrica ou Deus que o faça.
Aonde comprar, como pagar,
Por um brinquedo que não tem preço.

E chama-se simplesmente alegria!

Foto por Mariana Vasconcellos

sexta-feira, abril 20, 2007

Nos Trilhos


Nos olhos
Dos olhos
Cheios de vazio
Vaga o ardente,

Nos olhos
Dos olhos
O escuro
Engolindo luz,

Nos olhos
Dos olhos
A certeza
De pedra imóvel,

Nada dizem
Nada sentem
Tudo mentem
E assim tudo morre,

Sendo servos
Do amor
Que é
Cúmplice de Deus.

Foto por Paulo Fernando

quarta-feira, abril 11, 2007

A cada dia


Todos os dias eu te vejo
Salvo os que morro
Quando não me reconheço
Mas como te amo.

Amo mesmo você
Ou será engano?
Ilusão de ser humano
Por pernas, seios e ombro.

Amo tão forte
Feito dor de corte
E quando me desfaz
Um menino chora.

Quando rindo, dançando,
Miro teus falsos passos
Ante o tropeço, antes a queda,
Corro, te alcanço, te protejo.

Amor de cavalheiro
De um século e meio
De durar o ter e querer
De ir até o fim de mim.

E se segue o amor,
O que compreender?
Somos o numero perfeito
Um resultado de dois.

De um amor tão disparado
Que sempre chega primeiro
Antes do orgulho e desanimo
Ou da má noticia do carteiro.

Não sei quanto me custa
Manter esse sentimento
Nunca me fiz pergunta
Sobre algo que desconheço.

Apenas lembro me deixar invadir
Por dois olhos certeiros
Por um coração cheio
E um colo vazio.

Amo a mesma, você,
Amo o mesmo amor
Que se reinventa
Só para me fazer...
Continuar te amando.

Foto por Bruno Miranda

segunda-feira, abril 02, 2007

Conversa de dois cegos (Resposta)


Eu já fui um pouco melhor...
Mas continuo melancólico e imaturo...
Uma folha, bem verde...
Que teima em não amarelar e cair.

Acabei de ler, me arrepiei,
Senti meu rosto e meu corpo esquentar.
Sentimento diferente ver o que está presente
Somente no meu canto se transportar.
É como se alguém tivesse me tirado a roupa.

-Obrigado por suas palavras, pelo carinho de sempre.

-Tem um banquinho pra você no meu coração.

-Então só pra ser diferente, no meu tem uma arvore,
Com sombra e recosto, com vento leve e fresco.

Acabei de reler mais uma vez...
Meus olhos estão salgados...

...E mais uma vez, muito obrigado.


::resposta as doces palavras da grande amiga Aline,
escritas no blog de sete cabeças::

Foto por Mariana Maltoni