quarta-feira, dezembro 20, 2006

Esses dias de noites




















Meus sonhos estão gastos
Feito esses livros que releio
Dentro do meu quarto
Pobres esperanças tenho tido
De dias não vindos que virão
Minha vontade é de gritar
Para mudar a paisagem
Da forma mais covarde
Que se possa inventar.

Baixou-me a inconsciência
Talvez uma forma de extorquir
De outros o que não tenho
Minha alma está cansada
Desta pequena vida minha
E apesar de compreendê-la
Não lhe posso tocar
Tudo me fere e arde
Sinto-me um impostor
Por dentro destas vestes
Outro alguém subjugado
A ponto de escolher
Morte para um de dois filhos.

Quantas vezes já pensei em ser
O único comandante deste volante
Mas vejo abaixo o destino reagir
E me levar ao outro lado
Aceito o que a mim foi dado
Sou corpo em forma de fraco
Quem me dera ser criança
Colocando barcos de papel
Em uma piscina em dia de chuva.


Digo-lhe:
-A grandeza de uma alma não está
na percepção das pequenas coisas
e sim no entendimento do que é essencial.


Foto por Graça


quarta-feira, dezembro 06, 2006

R.I.P





























Ergo a mão e abro rapidamente a cortina da janela tentando provocar susto no que me cerca de fora, inútil. Parece que nada os assusta, ao contrario, tudo me assusta e entristece meus olhos, meu nariz, minha boca, meu peito, minha alma.
Todas ambições juntas formaram uma grande e cinza nuvem desaguando uma cor sem cor, sua obra sem vida. Edificações em forma de progresso rasgaram o assoalho que um dia registrou na lapide tudo que já não existe mais e ali se perdeu sobre tudo que se ergueu. Por trás da vitória deles surge a minha derrota em negra solidão, acima um céu vazio deserto de estrelas. A vingança vem em diferentes frentes, mas todas contra nós mesmos. Solução? Culpar os outros, e retornar ao ciclo interminável da nossa condição humana, ser desumano conosco e com nosso habitat.
Fecho os olhos e anseio estar em outro lugar, essa é a minha maquina do tempo, meu teletransporte que dura apenas segundos de paz. Porque a minha frente está o sentido da civilização a construção acelerada do amanhã, a recriação do que seremos. Antes ruas estreitas, casas baixas, vizinhos na calçada, seus filhos correndo pela rua. Hoje nada disso é natural. Estou preso e saudoso.
Não sei se a mim acontece, ou se a todos como eu que um dia viram e agora não vêem mais. Acontece que para mim e para os que sentem como eu, o natural se tornou estranho e diferente. Um bom dia, uma gentileza, um olhar de carinho, uma resposta educada, um ser humano. Nada se encontra mais dentro de nós, me parece que tudo está por fora, o sentido de sermos estranhos responde a pergunta do porque não sabemos ter em nós as respostas, elas migraram, tudo é exterior, é visual, é artificialmente feito para não nos encontrarmos em nós.
Nossa paisagem foi retirada aos poucos e mesmo percebendo sua irregular condição não nos constrangíamos e aos poucos se perdeu a harmonia, achou-se o caos, construíram a artificialidade, redesenharam a alma, apagaram o orgânico, tatuaram o imaginário.
Ainda forço o cerrar dos olhos o céu cai desmanchando o calor. Nevoa branca sobe do chão, estendo meu corpo, toca-me o choro de quem está em pedaços. Respiro alto e desperto. Olho para baixo, cruza a rua larga um homem, cruzam nossos olhos com desconfiança de não saber explicar.
Da janela o horizonte sinistro se move, quente e soturno, morcego com suas asas em vôo inquieto. Uma massa de umidade e calor cobre a cama para o sono da impiedosa tempestade. Em uma hora como esta vagueio meu pensamento vazio e limpo como os pássaros trazendo para si o contraste entre o que criamos destruindo, e o que ainda não foi tocado em vida.
Que Deus ou qualquer, já que existem tantos e tão pouca fé, nos abençoe e nos dê um pouco mais de tempo para que nessa terra ainda se crie sentidos opostos à incoerência do progresso e da ordem.

Foto por Manu Coloma

sábado, novembro 25, 2006

Dia 28...














... Lembrei,

Um dia alguém falou
Saiba antes o que carregar
Não leve só por dar nas mãos
Escolha da vida o que te serve
Para caber no que te faz feliz.

E desde aquele domingo
Por indicação de um amigo
Ganhei seus olhos verdes
Como quem ganha grandes bolas de gude
Como quem sonha em ter aquela bicicleta
Como quem chega e encontra a porta aberta.

Sou feliz assim sendo só seu
Vendo os dias sendo não tão meus
Vivendo a dois querendo mais que três
Te tendo aqui pra dividir
Te vendo aqui repartir
Mais um aniversário
E lá se vão quatro anos
E logo chegam outros e tantos
Mas como são bonitas essas rugas
Aparecendo juntas pra contar nossa história

Nunca foi tão fácil prometer
De quem mais eu poderia ser
Ter de tudo pra te dar
No coração te ter ao lado meu
E no seu ser o lado teu

São eles a felicidade vista
Meu prazer é perceber a cada dia
Sei que é você a alegria
Por traz de meus olhos castanhos
Que você já tinha ganho
Antes mesmo de conhecer.



-Se o amor não dura
Quem disse não mentiu
Apenas esqueceu
De olhar você e eu...



Foto por Bruno Miranda

terça-feira, novembro 21, 2006

...quem?















Não sou poeta, não sou escritor, desentendo o anuncio de tais palavras, pois não vivo nem de um nem de outro, invejo o inverso, o descompromisso, a ausência completa das linhas e contornos apontando a direção. A veste que me serve é minha não ousaria caber em um traje que não o meu. Simples, como posso ser o que nunca fui, como posso querer se não busco, em mim tudo o acaso traz, vou me descobrindo aos poucos feito criança há poucos dias saída do ventre e abandonada pela própria mãe. Renego qualquer adjetivo no sentido de limitar o que sinto, minhas palavras não pertencem a nenhuma ordem, a nenhum intermediário, pertencem ao que da alma colho e remeto ás caixas postais dos olhares que vez por outra caminham por estas linhas. Sou um triturador do espírito, alguém que espreme da calma da alma aquilo que sobra e se esconde.
Cada gota vale o prazer de revelar a mim o museu dos meus sentidos ou o futuro do meu imprevisto. Sou arqueólogo da infinita condição de não saber o que procuro tendo a certeza do que acho. Sim tudo é pessoal, tudo é intimo, não nego! Ante a vida fingi-se a todos, até aos mortos, menos a um, o corpo de dentro por dentro de nós. Sendo assim sou bem vindo a tudo que reconheço como sendo parte de mim.

Foto por Mariana Maltoni

terça-feira, novembro 14, 2006

Conversa ao pé do ouvido




























...
Fico esperando um convite seu
Com inicio com principio
Propicio pra deixar acontecer

Então deixa o sol se pôr
Pra me pôr em ti
Deixa a noite vir
Pra você vir a mim

Como seria ver
E receber
Reler em você
Aquela história de nós

Sinto muito e espero
Não despertar em ti
A culpa da minha dor
É que pousou em meu mundo
A recordação

Só queria te acordar
Pra falar de amor
Sem mais nem porque
Só de mim pra você.

Foto por Manu Coloma

sexta-feira, novembro 10, 2006

Êxtase














Escrevo sozinho no meu quarto, sozinho como sempre tenho sido pelas manhãs e como sempre serei, pois prefiro assim, preciso assim. Penso se a minha voz presa dentro desse arcabouço de razões seria a única, ou se, existe em outros o mesmo que existe em mim? Serão quantos a minha volta? Conhecidos ou desconhecidos? Do porteiro rabugento ao vizinho sorridente, do homem impaciente, ao dono da banca de revistas, quantos tem um quarto seu para abrigar silêncio e tristeza? Sinto que todos! Sinto por todos. Vejo-me no quarto andar dessa avenida, daqui leio do mundo seus lamentos por planos desfeitos que ao juntar-se aos meus me tornam pequeno e egoísta.
Eu me aperto contra a parede e pergunto a mim mesmo: O que você vai fazer hoje? Pescoço de lado olhando sentido chão, vê meus olhos caídos. Vejo-me: uma flor envelhecendo, triste por sentir os ombros arqueando cada vez que pensa em sorrir. Sou como vela que leva o barco, sou como quem vai carregado, me sinto apenas corpo, toco levado pela correnteza.
Tudo é amargo, o gosto do fel goteja em minha língua, conto gotas, conto os dias que parecem acabar em noites eternas cobertas por um manto de erros passados perpetuando um reinado de angustia.
Minha corrente tem dois lados, a segurança de estar vivo preso ao sentido de continuidade inerente a todos que tem no conforto de suas casas e na estabilidade de seus ofícios a felicidade. Pouco, talvez não? Apenas duas caixas de embrulho paraíso dia a dia abertas e varridas para debaixo do tapete da minha porta de entrada.

Foto por Bruno Espadana

sexta-feira, outubro 27, 2006

...dela para ele













Fiquei sem dormir
Tentei me acostumar
Com o que vi
E a pena por ver
Meu tempo terminar
Sem ter onde ficar

Pretendia te seguir
Até seu rosto
Encontrar um encosto
Ao lado meu
Ainda sem admitir
Te sinto aqui
Mesmo te deixando partir
Não consigo ir
Sem te querer pra mim

Num ultimo momento
Um tempo pra me refazer
Do que me desfez
Sinceramente
Fiquei doente
Pelo meu amor que caiu
E por você que nada sentiu

Te digo adeus
E peço a Deus
Pra te reencontrar
Algum dia
Em qualquer lugar
De preferência com urgência
De um coração que não sabe esperar.

Foto por Manu Coloma

sexta-feira, outubro 20, 2006

Pequeno pedaço













...
Ah, me deixem aqui com meus pensamentos falhos, com meu tempo desperdiçado em uma mesa de cartas sem significado. E se nada digo é que nada tenho a dizer, e se nada faço, nada tenho a fazer, aos que querem ver sentido que inventem os seus, porque o meu se desinventou. Basta! Deixem-me! Apenas escrevo o que sinto na tentativa de diminuir a febre do sentir, necessidade de estar aqui querendo estar longe de qualquer paisagem que vejo. Vejo e invejo os que têm nexo, sentido de estar aqui e ali, eu não tenho, faço parte sem fazer, faço por fazer de conta, morro a conta gota para caber no que não me serve.
São minhas confissões e se nelas existe o vazio é porque o vazio existe em mim, confesso aqui minhas sensações brancas e negras, sem importância, porque não devem ter importância, não sou digno de tal relevância, e se tenho nada é porque mereço o tê-lo. Sou mais uma das mazelas humanas, condição que me foi imposta ao nascer, e que pouco a pouco conjugo em gestos pelo viver e em palavras pelo escrever. Subsisto em algum pedaço dentro de mim, um grão calmo em meio à tormenta, um enigma dentro de minha própria alma...

Foto por José Da Silva Pinto

quinta-feira, outubro 19, 2006

Bem leve














...
Sigamos caro amigo ao encontro constante do interminável
Sigamos dois a sós com corações abertos e mentes mortas
Calmos ao respirar e calmos ao reparar em tudo menos em nós
Atenção para escutar as coisas simples como simples são
Fazendo a dor dançar pelo templo que no seu peito faz
O barulho que o tempo traz para dor se transformar em paz
E descansar dentro do seu sonho como se dele fosse dono.

Foto por Bruno Miranda

sexta-feira, setembro 22, 2006

Canção (in)comum













Enquanto eu continuar acreditando no que sinto
Estarei aqui comigo.
Apesar do seu mar de magoas transbordar,
Eu saberei nadar só.
Veja as fotos da cidade e de tudo que era como antes
Nossos rostos eram nítidos, nossas mãos eram limpas,
Nada que o tempo não esnobe e transforme.
Vou fingir que deixei alguém feliz,
Vou fingir saber o que antes aprendi
E talvez reaprender a ver em um olhar
O que palavras não sabem dizer.
Acreditar em Deus já não é suficiente
Pra me fazer acreditar no homem.
Continuo construindo meu mundo
A S S I M
Em forma de papel e borracha.

Foto por Jonne Roriz